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Secretaria de Cultura
O Carnaval, para a maioria de nós, é festa, extravasamento, marco temporal. Para o brasileiro, o ano é dividido em antes do Carnaval e depois do Carnaval. Essa festa extraordinária pode ser vista sob vários aspectos. O do folião certamente é o aspecto simbólico, que talvez se apresente com mais significados. Existem também a dimensão social e a econômica. Estas últimas que geram tensões e disputas importantes, pois é daí que se discute, por exemplo, o espaço, no Carnaval, para as manifestações e artistas da ala mais tradicional da folia, cada vez mais sofrendo os efeitos do Carnaval comercial, dos camarotes privados.
Como essas dimensões atuam, dialogam e disputam entre si? E mais, se para nós o ano começa mesmo depois do Carnaval, o que pode acontecer quando esse marco simplesmente desaparece? Como as políticas públicas podem atuar para equilibrar essa tensão que traz sempre a ameaça da lógica mais predadora do mercado sobre o Carnaval de tradições seculares?
O programa Cultura em Rede, da Secretaria de Cultura, vai discutir o assunto na live desta terça-feira (8). “Porque brincamos? Simbolismo e economia em tempos de não Carnaval” é o tema da live, que terá transmissão pelo Youtube e Facebook da Secretaria de Cultura de Pernambuco (Secult-PE) , a partir das 19h.
Os convidados são Paulo Miguez, vice-reitor da UFBA, doutor em ciências econômicas e culturas contemporâneas e especialista em estudos sobre o Carnaval brasileiro, e Hilton Santana, neto de Augusto Canuto, um dos cinco fundadores da centenária Troça Carnavalesca Mista Cariri Olindense, onde ocupa o cargo de Diretor de Comunicação e Marketing. A mediação será de Rita de Cássia Araújo, historiadora e pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco. Rita também é pesquisadora do Carnaval do Recife e, como amante da folia, cofundadora de alguns blocos, entre eles, o Pisando na Jaca e o Cinza das Horas.
“O Carnaval é uma arena de conflitos, uma festa de grandes conflitos, entre o público e privado, entre um gênero e outro, entre um bloco e outro. Não há como impedir essa disputa. Há sim uma obrigação indiscutível que essas disputas possam ser reguladas na direção de impedir que a dimensão econômica, que tem atores mais fortes, lógicas mais fortes, prevaleça sobre a dimensão simbólica. Essa me parece ser sempre a grande disputa que está sempre muito presente, embora outras disputas não deixem de acontecer”, reflete Miguez.
O pesquisador reflete também sobre os impactos da ausência de Carnaval, que considera necessária, nos últimos dois anos. “Os impactos são muito significativos. O Carnaval é um momento especial da vida brasileira, nas cidades em que acontece e onde também não acontece, na medida em que há uma vida do não Carnaval, que depende da existência do Carnaval. Então como povo, como cultura, perdemos imensamente não podendo realizar o Carnaval. Além da dimensão simbólica, não dá para deixar de considerar a economia da festa que em todos os carnavais se faz presente. Eu creio que os impactos são de grande importância”, considera o pesquisador.
Para Hilton Santana, o título de Patrimônio Vivo do Cariri, desde 2016, faz com que a agremiação seja privilegiada, pois a bolsa custeia várias despesas, entre elas, uma oficina de música permanente. Para ele, as festas particulares podem conviver aos costumes e tradições locais, contanto que também tragam o Carnaval em sua essência. “Desde quando me entendo por folião me vi dentro dentro da agremiação de alguma forma, essa discussão (da descaracterização do Carnaval e o conflito à respeito da degradação do Patrimônio Histórico) é presente e combatida. Cada vez mais a mecanização do som no nosso Carnaval tem influenciado bastante na evolução, no desfile. As agremiações não conseguem competir com paredões de alto falante nas ruas ou nas casas”, problematiza Hilton.
A pesquisadora Rita de Cássia também reflete sobre o tema da live. “Por que brincamos Carnaval? Há os que esperam o ano inteiro até ver chegar fevereiro, pra ouvir os clarins clarinar e a alegria chegar”. Outros brincam para esconder a dor, para espantar a tristeza ou matar a saudade. Há aqueles que brincam para se abraçar ou para encontrar um novo amor. Outros brincam porque querem brigar ou beber, beber, beber até cair. Outros mais querem mesmo é botar o bloco na rua, gingar e botar pra gemer. Alguns porque querem sua fama mostrar e outros porque é preciso cantar e alegrar a cidade. E há aqueles que não brincam, mas trabalham para que outros celebrem e vivam à festa, como também há os que buscam angariar prestígio, riqueza e poder. Por que brincamos? Os exemplos se multiplicam à exaustão sem jamais se esgotar. Isto porque o Carnaval é uma festa polissêmica. Seus sentidos e significados são múltiplos e diversos, variam no tempo e no espaço, assim também conforme as classes, as raças e os grupos sociais, as tradições culturais e religiosas legadas, as conjunturas políticas e econômicas e mesmo em função dos intercambiantes momentos na trajetória de vida de cada indivíduo”, coloca Rita.
Serviço
Live – “Porque brincamos? Simbolismo e economia em tempos de não Carnaval”, com as participações de Paulo Miguez (pesquisador), Hilton Santana (Cariri Olindense) e Rita de Cássia Araújo (pesquisadora)
Quando: Terça (8), às 19h
Transmissão: youtube.com/SecultPE | facebook.com/culturape