A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, participou de reunião na Comissão de Direitos Humanos (CDH) nesta quarta-feira (12) e, além de apresentar o planejamento estratégico da pasta, fez um balanço das ações implementadas nos primeiros 100 dias de governo. A ministra informou que grupos de trabalho têm atuado para reforçar o orçamento de políticas visando a inclusão de negros, povos tradicionais, ciganos e quilombolas, já tendo obtido algumas vitórias no Orçamento deste ano. Mas, segundo a ministra, é crucial a parceria com o Legislativo na consolidação deste reforço nos orçamentos seguintes, a partir de 2024.
O presidente da comissão, senador Paulo Paim (PT-RS), e os senadores Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Humberto Costa (PT-PE), Zenaide Maia (PSD-RN) e Damares Alves (Republicanos-DF), entre outros, manifestaram apoio ao incremento orçamentário ao Ministério da Igualdade Racial, já que a pasta toca políticas que podem beneficiar a ampla maioria da população. Anielle apresentou dados sobre o racismo que marca a sociedade brasileira. E observou que o reforço de políticas inclusivas podem ter um múltiplo efeito social.
— 56,2% da população brasileira são negros ou pardos, mas dentre os 33 milhões de pessoas em insegurança alimentar hoje, os negros e pardos correspondem a 70% deles. Por outro lado, apenas 29,9% dos cargos gerenciais no mercado de trabalho são ocupados por negros e pardos – ressaltou a ministra.
Anielle ainda apresentou outros dados oficiais dando conta da dificuldade do Brasil em superar o racismo estrutural. Nos últimos 10 anos, cerca de 410 mil pessoas negras foram assassinadas no Brasil, o que corresponde a 72% do número de homicídios. Mas o número tem aumentado nos últimos anos. Enquanto o assassinato de brancos caiu 26,5% em 10 anos, o assassinato de negros passou de 67% em 2010 para 78% em 2021. Entre os mortos pelas Polícias, 84,1% eram pessoas negras. Os negros também correspondem a 68% da população prisional hoje.
Por outro lado, as políticas inclusivas, como as leis que tratam de cotas, também apresentam efeitos. A presença de negros no ensino superior, por exemplo, cresceu 400%, e hoje 38% dos alunos são negros e pardos. “Um alento”, disse Anielle, ainda que esse percentual seja bem inferior à quantidade de negros e pardos na população. A ministra também salientou que os quilombolas somam quase 1,2 milhão no Brasil, por isso o reconhecimento de titulação destas terras é uma das prioridades da pasta.
Quanto às políticas inclusivas, Paim lembrou que o Senado também tem tomado iniciativas relevantes. Nasceram na Casa propostas como o Dia Nacional da Consciência Negra (20 de novembro) e a aprovação de diversos projetos tentando coibir a violência policial. Paim também citou a aprovação da Convenção Interamericana contra o Racismo (decreto 10.932, de 2022). Mas o presidente da CDH reconheceu que é preciso avançar muito mais, e vê como crucial a parceria do Parlamento com o Ministério da Igualdade Racial na definição de mais políticas de combate à violência policial e no incremento de leis que tratem de cotas.
Anielle Franco também apresentou um balanço dos resultados alcançados pela pasta nos primeiros 100 dias do governo Lula. Neste ponto, ela destaca o decreto que determina o preenchimento de, no mínimo, 30% das vagas em cargos comissionados na administração pública federal direta e indireta para negros (decreto 11.443, de 2023); e a criação do programa Mulher Viver sem Violência (decreto 11.431, de 2023), que reserva 8% das vagas em contratações públicas na administração federal direta, autarquias e fundações para mulheres vítimas de violência.
A ministra também mencionou a sanção da Lei 14.132, de 2023, que torna a injúria racial um crime inafiançável e imprescritível, equiparado ao racismo, com pena de 2 a 5 anos de prisão; a titulação de três territórios quilombolas que lutavam há mais de 10 anos pelo direito à terra em Brejo dos Crioulos (MG), Lagoa dos Campinhos (SE) e Serra da Guia (SE); a criação do programa Aquilomba Brasil, com foco no acesso à terra, infraestrutura, qualidade de vida, inclusão produtiva e desenvolvimento local em territórios quilombolas; e a criação do Grupo de Trabalho do Novo Programa Nacional de Ações Afirmativas para garantir e ampliar o acesso e permanência da população pobre e negra nas universidades.
Entre as prioridades da pasta, Anielle Franco apontou a efetivação do Disk 138, de encaminhamento de denúncias de racismo e obtenção de informações.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)