Kibutz: Raízes Socialistas em Israel

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Os contínuos ataques aéreos israelenses em Gaza destruíram a maior parte de um bairro localizado no centro do enclave. Autoridades do ministério da saúde administrado pelo Hamas dizem que o número total de mortos em toda a região aumentou para mais de 4.300 pessoas.

Mais da metade dos mortos são mulheres e crianças, afirma o ministério.

Cerca de 1,4 milhões de habitantes de Gaza foram deslocados, com mais de meio milhão de pessoas em 147 abrigos da ONU, afirma a própria organização.

O Exército de Israel disse que a ajuda se destinava apenas à parte sul do enclave palestino.

Os militares também pediram que todos os moradores do norte da Faixa de Gaza deixem a região e se desloquem para o sul da reserva de Wadi Gaza, no centro do território.

No entanto, os ataques aéreos israelenses também continuaram no sul de Gaza. Algumas pessoas se recusaram a sair das suas casas, afirmando que nenhum lugar é seguro.

Israel cortou o fornecimento de combustível, eletricidade e água a Gaza depois que o braço militar invadiu a fronteira com Israel, matando mais de 1.400 pessoas e fazendo mais de 200 reféns.

O Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) disse que “bombardeios intensivos” continuavam em Gaza, assim disparos indiscriminados de foguetes contra centros populacionais israelenses” de grupos armados palestinos.

Funcionários da ONU descrevem a situação em Gaza como catastrófica. Já o porta-voz militar israelense, Daniel Hagari, disse que as condições humanitárias em Gaza estavam “sob controle”.

A maior parte do bairro de Al-Zahraa foi destruída

Os últimos ataques aéreos israelenses destruíram o bairro de al-Zahraa, no centro de Gaza. Mais de 20 blocos de apartamentos foram arrasados durante a noite de sexta-feira (20/10).

Imagens e vídeos postados nas redes sociais mostraram nuvens de fumaça subindo acima do bairro e fileiras de prédios destruídos ao longo de ruas repletas de escombros.

Moradores disseram à BBC que não esperavam o bombardeio porque a área estava relativamente calma. Eles disseram que foram instruídos a evacuar na noite de quinta-feira, por volta das 20h30, no horário local.

“Corremos pelas ruas. Então Israel começou a bombardear esta área sem parar, das 21h às 7h desta manhã”, disse uma mulher à BBC na sexta-feira.

O bombardeio deixou milhares de pessoas sem ter para onde ir. Na sexta-feira, outro morador disse à BBC que pessoas ainda estavam presas sob os escombros de suas casas.

“As ambulâncias não podem chegar aqui. As pessoas estão gritando, mas não podemos retirá-las”, disse ele.

Ordens para esvaziar hospital

No norte de Gaza, a organização humanitária Crescente Vermelho disse que as forças israelenses ordenaram a evacuação do hospital Al-Quds.

O hospital abriga atualmente mais de 400 pacientes e 12 mil civis deslocados, segundo a instituição.

A Crescente Vermelho apelou à “comunidade internacional para agir com urgência”.

Um grupo de médicos, Médicos pelos Direitos Humanos de Israel, disse ter apresentado uma petição ao Supremo Tribunal israelense alertando que o hospital Al-Quds não poderia ser esvaziado.

“Na sua resposta, o Estado anunciou que não atacaria o hospital por enquanto”, disse o grupo, que afirmou que um ataque ao local poderia colocar civis em perigo, representar uma violação do direito internacional e causar danos aos serviços médicos.

Já a ONG Save the Children alertou que a vida de um milhão de crianças em Gaza “está em jogo”.

A agência humanitária pediu a evacuação médica urgente de crianças doentes e feridas de Gaza e alertou para o aumento de mortes como resultado direto da grave escassez de suprimentos médicos e dos apagões de energia.

Kfar Aza, Be’eri, Nahal Oz, Magen eram nomes pouco conhecidos antes do ataque surpresa do grupo militante palestino Hamas contra Israel.

São todos kibutzim, plural de kibutz em hebraico, comunas agrícolas israelenses que se provaram uma experiência socialista e democrática radical significativamente bem-sucedida.

A história dos kibutzim começou quatro décadas antes da fundação de Israel, período durante o qual cumpriram muitas das funções de um Estado.

Eles desempenharam um papel fundamental não só no desenvolvimento agrícola e intelectual do país, mas também na sua defesa e liderança política.

Também se tornaram o berço da elite do bloco social-democrata progressista que durante décadas dominou a política, a sociedade e a cultura do país, sendo um viveiro de líderes políticos e militares, bem como de intelectuais e artistas.

Além disso, foram criados por idealistas como comunidades rurais coletivas que combinavam o sonho de estabelecer um lar para os judeus com a visão de construir um mundo melhor.

Por fim, lançaram as bases da comunidade secular em Israel por representarem uma nova forma de ser judeu, mais apegada à terra do que à religião.

Os membros dos kibutzim, os kibutzniks, incorporaram o ideal do sionismo, o movimento político surgido no fim do século 19 que defendia a ideia de formação de Estado Nacional que abrigasse os judeus na Palestina: cidadãos fortes, agricultores qualificados e soldados corajosos, livres do medo e da agitação da diáspora.

Embora os kibutzniks nunca tenham representado mais do que uma pequena percentagem da população israelense, foram indispensáveis na formação do tecido social do país.

Sua influência foi enorme e seu legado fundamental.

A utopia

Os kibutzim nasceram baseados em um princípio: cada um de acordo com suas capacidades, cada um de acordo com suas necessidades.


O primeiro kibutz foi fundado em 1909, em terras adquiridas pelo Fundo Nacional Judaico ao sul do Lago Kineret, então sob o controle do Império Otomano.

A Degania foi fundada por um grupo de 12 jovens imigrantes judeus da Europa de Leste que sonhavam em trabalhar a terra e forjar um estilo de vida alternativo que trouxesse igualdade real e conferisse à vida quotidiana um significado especial.

Este kibutz era diferente dos assentamentos agrícolas judaicos anteriores por usar o voto majoritário para tomar todas as decisões. Na sequência, outros kibutzim foram criados seguindo seu exemplo.

Neles todos os membros eram iguais, todos faziam tudo e tudo pertencia a todos, até presentes pessoais, que eram dados para usufruto da comunidade.

O trabalho era um valor em si, e o conceito de dignidade do trabalho elevava qualquer trabalho.

As tarefas eram rotativas: quem era administrador de todo o kibutz num dia, lavava a louça no refeitório comunitário no dia seguinte.

Segundo o ideal de igualdade econômica completa, os membros do kibutz comiam em uma cozinha comunitária, usavam as mesmas roupas e partilhavam a responsabilidade pela criação dos filhos, programas culturais e outros serviços sociais.

O centro da atividade era a agricultura.

Embora o ambiente fosse hostil, as terras muitas vezes desoladas e a água escassa, os kibutz tornou-se um empreendimento poderoso e tecnologicamente avançado no campo da agricultura.

Além disso, a partir das décadas de 1920 e 1930, alguns kibutzim passaram a se industrializar, fabricando uma ampla gama de produtos, desde roupas até sistemas de irrigação, mas especialmente alimentos processados, plásticos e metais.

Desde então, os kibutzim respondem por 33% da produção agrícola e 6,3% da produção industrial de Israel. Ambos os percentuais excedem em muito a sua participação na população, que é de 2,5%.

E politicamente?

Os kibutzim lançaram as bases ideológicas e estruturais de Israel, bem como do movimento trabalhista.

É por isso que o kibutz é considerado um dos principais pilares do Estado de Israel.

Crise existencial

Mas o mundo mudou e os moradores dos kibutzim não tiveram outra escolha senão aceitar a nova realidade.

Isso significou comprometer em muitos aspectos sua ideologia.

Apesar de essas comunidades nunca estarem isoladas do restante da sociedade israelense, as novas gerações não partilhavam das aspirações socialistas; não aceitavam abdicar dos interesses individuais em prol dos comunitários.

Havia também quem considerasse o kibutz um bastião do secularismo contra a tradição, que se opunha à família tradicional e uma ideologia contra a propriedade privada.

Além disso, alguns imigrantes de certas regiões consideraram degradante a ideia de fazer trabalho manual.

Como pano de fundo, o governo trabalhista caiu em 1977, e Israel viveu hiperinflação e crises econômicas nas duas décadas seguintes.

Resultado: para muitos kibutzniks, não havia outra escolha senão mudar ou desaparecer completamente.

O que aconteceu então foi uma revolução social.

No início do século 21, 179 dos 270 kibutzim de Israel foram privatizados.

Embora seus princípios tenham sido esvaziados, eles não descartaram completamente a sua ideologia original.

Em vez disso, diferenciaram entre economia e gestão, de um lado, e comunidade, de outro.

A nova geração de líderes do movimento continuou interessada na responsabilidade social, mas não tanto no princípio da igualdade.

O pagamento diferenciado foi introduzido, a empresa comercial começou a operar de acordo com parâmetros orientados pelo mercado, a gestão tornou-se profissionalizada e as estruturas comunitárias e empresariais foram separadas.

Mas, em vez de eliminarem totalmente a propriedade pessoal, os membros dos kibutzim privatizados pagam ao kibutz uma taxa progressiva do seu rendimento, de modo que a desigualdade social é menor do que no restantes da sociedade israelense.

A renda comunitária é usada para cuidar dos idosos, dos doentes e daqueles que não conseguem ganhar salários elevados, e também fornecem cuidados médicos, educação e cultura aos seus membros.

Essas mudanças deram sobrevida financeira aos kibutzim, tirando a maioria deles de um estado de crise e atraindo novos membros.

Enquanto isso, jovens israelenses inspirados pela ideia de comunidade do passado criaram novos modelos, como os kibutzim urbanos chamados irbutzim (‘ir’ significa cidade), nos quais os membros vivem em comunidade em uma área em desenvolvimento e trabalham para fortalecer a população.

E ainda há alguns que permanecem decididamente socialistas.

Um kibutz que manteve a abordagem coletivista tradicional que remonta ao início do século 20 é Be’eri, onde o Hamas, no dia 7 de outubro, matou mais de 120 dos seus 1.100 moradores e sequestrou vários outros.

O filósofo Martin Buber afirmou que o kibutz foi a tentativa mais impressionante de vida comunitária: “uma experiência que não falhou.”

Mas, com todas as dificuldades do final do século passado e as mudanças do início deste século, essa premissa é agora posta em dúvida.

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