

Esquerda identitária e extrema direita populista são responsáveis por polarizar a sociedade
Em uma escola pública em um subúrbio rico de Atlanta, Geórgia (EUA), uma mãe negra enfrenta resistência ao tentar matricular sua filha de 7 anos em uma turma específica. A diretora, também negra, nega o pedido, afirmando que essa não é a classe para alunos negros. Este incidente recente exemplifica o que o cientista político alemão-americano Yascha Mounk chama de “armadilha identitária” em seu novo livro “A Armadilha Identitária: Uma História de Ideias e Poder em Nosso Tempo”. Mounk argumenta que uma parte da política progressista ou de esquerda atual tem dado prioridade à identidade sobre valores universais e regras neutras, como liberdade de expressão e igualdade de oportunidades, o que ele denomina de “síntese identitária”.
Para Mounk, essa abordagem tem alienado uma parcela significativa da população e fortalecido a extrema direita populista, como evidenciado por figuras como Donald Trump e Jair Bolsonaro. Ele critica a desvalorização dos princípios básicos, como um homem, um voto, e enfatiza que ao focar nas diferenças entre grupos sociais, a esquerda fragiliza a democracia. Mounk cita exemplos, como a distribuição de vacinas contra a COVID-19 nos Estados Unidos, em que a síntese identitária levou a políticas públicas inadequadas, causando injustiças.

No contexto brasileiro, Mounk reconhece a necessidade de combater a estratificação racial e aumentar a representatividade de grupos marginalizados na política, mas questiona a eficácia das cotas explícitas, que podem desvalorizar os candidatos qualificados. Ele critica a maneira como a esquerda tem abordado a questão racial, enfatizando a importância de escolher candidatos com base em méritos reais, em vez de limitar as escolhas a quotas raciais.

Quanto ao futuro do debate identitário, Mounk prevê uma contínua luta sobre o significado de ser de esquerda e sobre a natureza dessas ideias. Ele destaca a importância de críticos razoáveis dessas ideias vencerem, defendendo a tolerância, a verdadeira igualdade e a compreensão mútua através das linhas políticas, em vez de construir uma sociedade baseada em conflitos entre diferentes grupos de identidade. O autor enfatiza a importância de construir uma sociedade com uma identidade compartilhada, tratando todos os seus membros com igual respeito e justiça.
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